Livros no Blurb

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

India

In her old-young eyes
There is no joy, no light, no hope.
Silent, small hands clasped,
Beside the simple mound she kneels.
Down from those eyes,
Dark pools of light and alternating shade,
Descends the bitter shower,
The life-blood from her over-charged heart.
So young…
Yet in those luminous lakes
The wisdom of her people burns —
Wisdom that always was.
So young…
She kneels beside the simple mound.
Around her and above
The rainless shimmer
Scorches the parched earth.
Thin shoulders tremble,
Her small, wise heart beats against
Her thin breast;
Bitter-sweet, from laden eyes,
Heavy with her people's sorrow,
Descends the bitter stream.
Camera on shoulder
The opulence of the West, unmoved, untouched looks on.
Around him and above
Heat heavy
Heat killing
Parched earth.
No stir, all life has long since passed
And left no trace
Save bleached bones
And emptiness
And mounds of lifeless earth
Watered by tears.
Camera to shaded eye.
A moment only,
Then thick tyres stir up the heavy lifeless earth.
All is silence…
No bird sings, nor low of cow is heard.
Thin, wise eyed,
Kneeling beside the mound of desolate earth,
So young…
The strangled sobs, torn from her thin breast,
Alone break the silence
Of Death.



October dee



Powered by ScribeFire.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Arvéolas

Alvéola-branca (Motacilla alba)


Pelas terras lavradias
Vão saltando, debicando
As arvéolas luzidias.

E é mesmo uma graça quando,
Tocadas de um raio de sol,
Se erguem dos regos arfando,
Pedindo ao sol que as console…

Alegres, vibráteis, elas
Têm nas pontiagudas asas
Um corte airoso de velas.

E pelas campinas rasas,
Passinho leve, olho esperto,
Como a andar num chão de brasas,
Às horas da lavra é certo.

Vê-las dos sulcos rasgados
Voar e poisar depois,
Ou na espinha dos arados,

Ou nos chavelhos dos bois,
Que impassíveis nem dão tento,
A caminhar dois a dois
Num passo pesado e lento.

Que destino tão diverso
Vêm cumprindo as criaturas
Esparsas pelo Universo:

Sofrem os bois as mais duras
Canseiras todos os dias,
Entre as joviais travessuras
Das arvéolas reinadias.

No entanto eu gosto de vê-las
Quando o sol as várzeas doira,
Dando alegria às courelas,

Palpitações à lavoira
E enchendo de asa e trilos,
Os largos campos tranquilos.



Conde de Monsaraz (Lira de Outono, 1954)





Powered by ScribeFire.

sábado, 6 de outubro de 2007

Os meus livros 9

Capa do volume "Região Alentejo" (Círculo de Leitores, 1992)


Capa do volume "Região Alentejo" (Temas & Debates, 1996)


Um aspecto do interior do terceiro volume



Este foi o terceiro volume da colecção Roteiros da Natureza a ser publicado.

Nestes livros incluí muita informação inédita, que coligi através dos estudos de índole técnica que ia realizando um pouco por todo o país pela Naturibérica, Lda. — empresa de que fui sócio-fundador —, ou que resultou de investigações pessoais. Destas últimas destaca-se, por exemplo, a descoberta de uma pequena população reprodutora viável de abibe (Vanellus vanellus) em pleno Alentejo, uma ave comum como invernante em Portugal.
Orgulho-me pelo facto do volume sobre os Açores ter sido utilizado num doutoramento sobre a vegetação natural deste arquipélago e do mesmo livro constar da bibliografia do recente Atlas de Portugal, coordenado pela Dra. Raquel Soeiro de Brito, uma prestigiada geógrafa.
Esta colecção foi igualmente precursora de variadíssimos roteiros que posteriormente vieram a ser editados por inúmeras pessoas e instituições, que neles se inspiraram e de onde retiraram diversa informação.
Apesar de tudo o que anteriormente se disse, esta colecção nunca mereceu dos meus pares a mais pequena referência embora soubesse que à boca pequena se iam tecendo vários comentários. Creio que é o preço a pagar por quem se mantém um "não alinhado", por quem teima em não querer ser apenas mais um carneiro sujeito aos "esquemas" da comunidade.


Powered by ScribeFire.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

O melro

Melro (Turdus merula)



O melro, eu conheci-o:
Era negro, vibrante, luzidio,
Madrugador, jovial;
Logo de manhã cedo
Começava a soltar, dentre o arvoredo,
Verdadeiras risadas de cristal.
E assim que o padre cura abria a porta
Que dá para o passal,
Repicando umas finas ironias,
O melro, dentre a horta,
Dizia-lhe: "Bons dias!"
E o velho padre cura
Não gostava daquelas cortesias.



Guerra Junqueiro (A Velhice do Padre Eterno, 1885)



Powered by ScribeFire.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Quinta das Canadas 8

Folhas de carvalho-negral (Quercus pyrenaica)



Duas perspectivas diferentes da ribeira das Canadas


A quinta é atravessada por uma ribeira principal — a ribeira das Canadas —, à qual se juntam alguns pequenos riachos. Esta é a sua principal zona húmida, encontrando-se ladeada por uma cortina continua de vegetação que inclui salgueiros (Salix sp.), freixos-de-folha-estreita (Fraxinus angustifolia), carvalhos-negral (Quercus pyrenaica), pilriteiros (Crataegus monogyna), madressilvas (Lonicera periclymenum) e até diversas nogueiras (Juglans regia). Também se pode observar o azereiro (Prunus lusitanica), uma pequena árvore selvagem aparentada com a ameixoeira, que é rara em Portugal. Apesar de constituir um habitat linear, a ribeira suporta uma quantidade e diversidade de formas de vida espantosas. Inúmeros invertebrados constituem a dieta alimentar de anfíbios e répteis bem como de pequenas aves insectívoras. A rã-ibérica (Rana iberica) e o lagarto-de-água (Lacerta schreiberi) são endemismos do noroeste e ocidente peninsulares que aqui vivem.
Para além das linhas de água existem nascentes e diversos tanques que também fazem parte das zonas ribeirinhas. Embora praticamente destituídos de vegetação lenhosa, estas estruturas são importantes sobretudo para os anfíbios (i.e. rãs, sapos, tritões e salamandras). Aves e mamíferos utilizam-nas para beber e a cobra-de-água-viperina (Natrix maura) é o réptil mais característico.


Powered by ScribeFire.

domingo, 30 de setembro de 2007

A perdiz

Perdiz (Alectoris rufa)



Nas lezírias verdes, leiras de restevas,
Nos matos cerrados de urzes e de estevas,
Por charnecas tristes, montes escalvados,
Nos casais, nas quintas, junto aos povoados,
Pelos mais fragosos rudes alcantis
Vê-se de certeza rasto de perdiz…

Como o senhor bispo, o bom bispo velho,
Calça meia fina de setim vermelho;
O colar de penas que lhe adorna o peito
Lembra-me a corola de um amor-perfeito.

Mais esquiva e leve que ágil levandisca
Tem meneios gráceis de donzela arisca…
E a cabeça ao alto e o pescoço esguio
Dão-lhe ao fino porte distinção e brio.

Se
enchoçada salta, pelo tempo mau,
Vai pelas encostas a dizer: "piau!"
Mas se venta o norte ou se faz suão,
Quando caem neves, gelos e granizos,
Disparando voos lá vai ela então
Mais veloz que as setas a
tinir os guizos!…


Fausto José (É El-Rey Que Vai à Caça, 1951)


Powered by ScribeFire.

sábado, 29 de setembro de 2007

Animais, plantas e paisagens de Portugal 1

Confesso que estive tentado a criar um blog de raiz com este mesmo título. No entanto parece-me mais sensato desenvolver este tema aqui.
A ideia essencial é ir apresentando paisagens, plantas e animais de Portugal, que começarei por ilustrar fotograficamente, falando das suas características e da sua distribuição no país. Poderão ser abordados outros aspectos que não apenas os ligados à sua biologia ou ecologia.
Inicio o tema introduzindo de seguida um texto que produzi há uns anos e que julgo fazer sentido incluir aqui.

A história do património natural de uma região é geralmente complexa e de difícil interpretação. Radica tanto nas alterações geológicas e climáticas registadas ao longo da evolução da Terra, como também na evolução das sociedades humanas e na sua crescente capacidade de intervenção sobre o meio ambiente. O caso da bacia mediterrânica, na qual se insere a região em estudo, é particularmente ilustrativo dado que sofreu, ao longo dos tempos, profundas convulsões de carácter geológico e foi berço de diversas civilizações com um historial antigo de intervenção sobre a paisagem e as próprias espécies biológicas (Blondel & Aronson, 1999). Apesar disso, a bacia mediterrânica é hoje um dos grandes centros de biodiversidade do planeta e certamente o mais importante a nível europeu.

Um significativo conjunto de espécies emblemáticas da Península Ibérica, no qual se incluem as grandes aves de rapina, a cegonha-preta, o grou (Grus grus), algumas aves estepárias e mamíferos carnívoros como o lobo e o lince, distribuem-se fundamentalmente pelas províncias mais interiores. Isto é, naquelas que têm uma baixa densidade populacional, uma fraca ou nula expressão das actividades industriais (e outras actividades económicas de grande impacto sobre a paisagem) e um antigo e tradicional uso da terra, baseado em práticas silvopastoris e agrárias de tipo extensivo. Por isso, não será de estranhar que as regiões detentoras de maior riqueza natural sejam aquelas que se estendem ao longo da fronteira luso-espanhola, de ambos os lados da mesma, a saber: Andaluzia, Estremadura e Castela-Leão, do lado espanhol; Alentejo Interior, Beira Interior e Trás-os-Montes, do lado português.

António Pena (Uma viagem pelo património natural das aldeias históricas do interior beirão, 2002)

Bibliografia

Blondel, J. & Aronson, J. (1999): Biology and wildlife of the mediterranean region. Oxford University Press.


Powered by ScribeFire.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Segredo

Ninho de rouxinol-grande-dos-caniços (Acrocephalus arundinaceus)


Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar…



Miguel Torga (Diário VIII, 1956)


Powered by ScribeFire.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007