Livros no Blurb

terça-feira, 31 de julho de 2007

Camões, grande Camões…

Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu quando os cotejo!
Igual causa nos fez perdendo o Tejo
Arrostar co sacrílego gigante:

Como tu, junto ao Ganges sussurrante
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante:

Lubíbrio, como tu, da sorte dura,
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura:

Modelo meu tu és... Mas, ó tristeza!...
Se te imito nos transes da ventura,
Não te imito nos dons da natureza.


Manuel Maria Barbosa du Bocage


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segunda-feira, 30 de julho de 2007

Quinta das Canadas 4

Líquenes de várias espécies sobre tronco de castanheiro (Castanea sativa)

A quinta encontra-se na área demarcada do queijo da serra


A quinta tem uma apreciável diversidade ambiental e também se encontra numa situação geográfica que lhe confere, pelo menos por enquanto, claras diferenças sazonais. É por isso que as suas comunidades biológicas são tão ricas. Tal facto é mais notório ao nível das comunidades zoológicas uma vez que a intervenção milenar do homem sobre a paisagem terá modificado profundamente os ecossistemas naturais e suas espécies vegetais características. O ambiente actual é aquilo que costumo designar de meio rural, isto é, um ecossistema antropogénico, muito heterogéneo, mas do qual diversos animais dependem para a sua subsistência.
Nos prados e lameiros avultam algumas plantas anuais da família das gramíneas, das compostas, etc. Para os vertebrados, estes ambientes funcionam sobretudo como fonte de alimento embora as toupeiras (Talpa occidentalis) e os ratos-toupeiros (Microtus spp.) aqui residam. Os povoamentos arbustivos são dominados pelas giestas, em particular a giesteira-branca (Cytisus multiflorus) e a giesta-negral (Cytisus striatus). A esteva (Cistus ladanifer) costumava ser rara mas desde há uma dezena de anos que tem vindo a aumentar de abundância. No final do inverno surgem os belos Narcissus triandrus. Os giestais apresentam ainda silvas (Rubus sp.), pilriteiros (Crataegus monogyna) e jovens carvalhos, para além de outros arbustos e ervas. Também aqui há poucas espécies de vertebrados residentes. Estas preferem o parque florestal, o carvalhal, o soito e as galerias ribeirinhas, ou seja, os habitats mais estruturados, mais complexos, de maior "oferta ecológica".

sábado, 28 de julho de 2007

Correm turvas as águas deste rio…

Correm turvas as águas deste rio,
que as do Céu e as do monte as enturbaram;
os campos florecidos se secaram,
intratável se fez o vale, e frio.
Passou o Verão, passou o ardente Estio,
üas cousas por outras se trocaram;
os fementidos Fados já deixaram
do mundo o regimento, ou desvario.
Tem o tempo sua ordem já sabida;
o mundo, não; mas anda tão confuso,
que parece que dele Deus se esquece.
Casos, opiniões, natura e uso
fazem que nos pareça desta vida
que não há nela mais que o que parece.


Luís Vaz de Camões



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sexta-feira, 27 de julho de 2007

Fotografia 4

Planta de jardim


No seguimento do que já escrevi acerca dos 3 principais tipos de câmaras digitais de pequeno formato apresento aqui um artigo que ajudará quem estiver com vontade de comprar uma máquina fotográfica e tiver dúvidas sobre qual dos três tipos escolher. Como em diversas outras escolhas, os nossos gostos e prioridades tendem a sobrepor-se às características técnicas dos aparelhos mas há que ter cuidado e tentar procurar um compromisso entre os vários factores em jogo.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

O navio de espelhos

O navio de espelhos
não navega, cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

E no mastro espelhado
uma espécie de porta

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ála
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo


Mário Cesariny (A Cidade Queimada, o navio de espelhos XIII, 1977)

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Mértola


Paisagem típica do concelho de Mértola: pousios-pastagem e manchas de esteval. Na segunda imagem vê-se, ao fundo, a serra de Alvares (Penilhos) [© AnPena 2007]

Tinha de ser! Há mais de 20 anos, ainda antes de Portugal entrar para a então Comunidade Económica Europeia (CEE), entre nós, sócios da Naturibérica, Lda., discutíamos sobre o que poderia acontecer no concelho de Mértola de muito negativo e na altura só nos ocorreu pensar que uma área tão vasta, com solos paupérrimos de fraca (ou nula) aptidão agrícola e até de diminuta aptidão florestal, longe de tudo, de baixíssima densidade populacional, se "arriscava" a atrair industrias extremamente poluidoras que poderiam fazer o seu "trabalho sujo" à vontade pois ninguém se iria queixar.
Hoje li uma notícia preocupante. Parece que por razões de segurança, seja qual for a opção para o novo aeroporto de Lisboa, o campo de tiro de Alcochete vai ter que sair de onde se encontra e a hipótese que já corre pelos meios militares é a do concelho de Mértola que teria uma localização ideal justamente devido às suas características populacionais e agro-florestais.
Pois foi exactamente devido a elas e ao facto de ter aqui existido durante séculos uma actividade agrícola e uma silvopastorícia extensivas, de fraca incorporação tecnológica, que até hoje se manteve neste território um dos mais ricos patrimónios naturais de Portugal, que aliás esteve na base da criação do Parque Natural do Vale do Guadiana.
Não sei se as nossas Forças Armadas precisam de um campo de tiro onde, por exemplo, jactos em voo rasante lançarão bombas sobre terrenos que alguns denominarão de estéreis, de improdutivos, mas que acolhem uma comunidade de avifauna estepária de grande valor de conservação. Sei, porém, que quanto à localização de actividades polémicas e de grande impacto funciona naturalmente a política do nimby (not in my back yard). Ficarei atento a novos desenvolvimentos e sobretudo à reacção das ONGs ambientalistas.


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terça-feira, 24 de julho de 2007

Os meus livros 4

Capa do livro sobre o concelho de Sintra

Em 1992, a C. M. de Cascais editou o livro Cascais. Um olhar sobre a natureza, que realizei em co-autoria com o Luís Gomes, um dos meus sócios de então. Tem dois capítulos fundamentais: "Caracterização biofísica global" e "Caracterização ecológica". Falámos dos aspectos naturais do município em função de uma divisão do mesmo em 4 zonas distintas: "Zona de intensa ocupação humana", "Zona agrícola", "Zona costeira" e "Zona serrana". No final apresenta-se um glossário de termos técnicos, um conjunto bibliográfico seleccionado e uma lista de espécies florísticas e faunísticas do concelho.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

domingo, 22 de julho de 2007

As saudades do mar

Escoam-se os minutos vãos
como se escoa o pranto
e eu olho com raiva e espanto
as minhas mãos.

Vazias. Estrangularam o vento.
E seu voo, quando querem voar,
é lento como o desalento.

— Que saudades do mar.

Do mar daquela terra estilhaçada
que é minha, da minha raça
que não tem direito a nada
mas tem direito à desgraça.

Desgraça. E as minhas mãos olhando,
com raiva e espanto, eu cismo
que são dois pedaços de cortiça boiando
no tempo, à beira do abismo.

Sidónio Muralha (in Fanha, J. & Letria, J.J., 2002: Cem poemas portugueses do adeus e da saudade. Terramar)