Livros no Blurb

sábado, 21 de junho de 2008

Água

Água a correr na fonte.
Uma quimera líquida que sai
Das entranhas do monte
A saber ao mistério que lá vai…

Pura,
Branca, inodora e fria,
Cai numa pedra dura
E desfaz o mistério em melodia…



Miguel Torga (Diário II, 1942)


terça-feira, 17 de junho de 2008

Concelho da Guarda em imagens 1

Núcleo de castanheiro (Castanea sativa) e carvalho-negral (Quercus pyrenaica) na encosta sobranceira a Mizarela


A zona serrana vista a partir de Cubo


sexta-feira, 6 de junho de 2008

[Deriva]

Vi as águas os cabos vi as ilhas
E o longo baloiçar dos coqueirais
Vi lagunas azuis como safiras
Rápidas aves furtivos animais
Vi prodígios espantos maravilhas
Vi homens nus bailando nos areais
E ouvi o fundo som de suas falas
Que já nenhum de nós entendeu mais
Vi ferros e vi setas e vi lanças
Oiro também à flor das ondas finas
E o diverso fulgor de outros metais
Vi pérolas e conchas e corais
Desertos fontes trémulas campinas
Vi o rosto de Eurydice das neblinas
Vi o frescor das coisas naturais
Só do Preste João não vi sinais

As ordens que levava não cumpri
E assim contando tudo quanto vi
Não sei se tudo errei ou descobri



Sophia de Mello Breyner Andresen (Navegações, 1982)



segunda-feira, 2 de junho de 2008

Os meus livros 20

Capa de "Roteiro Turístico do Baixo Guadiana" (Associação Odiana, 1999)


Um aspecto do interior do Roteiro


Este roteiro diz respeito aos concelhos de Alcoutim, Castro Marim e Vila Real de Santo António. A minha colaboração neste projecto materializou-se na autoria de textos e de fotografia (paisagem, fauna e flora). Quanto à colaboração escrita, foi de minha responsabilidade a parte introdutória ("o território", "as condições geoclimáticas", "o meio natural") e diversos textos espalhados pela publicação, caracterizando o património natural de diversos locais/meios ecológicos ou descrevendo-o, ao longo de percursos pela região.
Este roteiro foi traduzido em inglês, francês e alemão.


quarta-feira, 28 de maio de 2008

[Timor]

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E eis-te no fim do mundo,
Costa verde e vermelha de Timor!
Mas que divina, extraordinária cor
A do teu céu, a do teu mar profundo!

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É de oiro a manhã de Díli,
Trila a distância o corlíli
Na frescura dos ribeiros.
Sussurra perpetuamente
A verde sombra premente
Dos salgueiros.

As cacôacs, de alegria,
Animam a romaria,
Quasi se afoga e desmaia
Na doçura langurosa
Da flor pálida e nervosa
Da papaia.

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Alberto Osório de Castro (A Ilha Verde e Vermelha de Timor, 1943)


domingo, 25 de maio de 2008

Animais, plantas e paisagens de Portugal 12





A couve-do-mar (Calystegia soldanella) é uma erva da família Convolvulaceae. Calystegia é uma palavra que deriva do grego kalux, "taça", e stegos, "cobertura". Por sua vez, soldanella significa "pequena moeda" (do italiano soldo) devido à forma das suas folhas. Estas são reniformes, longamente pecioladas, carnudas e de um verde escuro. As flores são bastante grandes, solitárias, vistosas, rosadas e habitualmente apresentam listras brancas.
Trata-se de uma erva psamófila de caules prostrados, perene (proto-hemicriptófito, isto é, planta de caules folhosos cujas gemas de renovo se encontram à superfície do solo), relativamente comum nas zonas mais recuadas das praias (ante-duna), de todo o litoral português.
Floresce entre Abril e Agosto.
Originalmente distribuía-se pelas costas do Mediterrâneo, do Mar Negro, do Mar Cáspio e do Atlântico até à Escócia e à Dinamarca. Actualmente encontra-se por todo o mundo.

terça-feira, 20 de maio de 2008

[Bananeiras]

Vou ao mercado — o mercado atrai-me: pequenino, com duas ou três árvores e uma fonte, todo ele transborda de fruta como um cesto cheio — cachos de bananas amarelas, alcofas de vindima a deitar fora com damascos, figos pretos sumarentos e entreabertos, a destilar sumo. Toda a fruta aqui é deliciosa e a banana deixa na boca um perfume persistente para o resto da vida.


Raul Brandão (As Ilhas Desconhecidas, 1926)


segunda-feira, 12 de maio de 2008

Horizonte

Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidéreo
'Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.

Fernando Pessoa (Mensagem)

quinta-feira, 8 de maio de 2008