Livros no Blurb

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

[O sobreiro]


O montado de sobro, na sua soturnidade, é uma das belezas rudes e severas da terra. Sobrevivência da floresta primitiva, fonte apetecida e explorada de riqueza, mau grado as pragas e o desbaratamento económico que tem sofrido, esta árvore mantém em muito a sua robustez bravia e acaso daí a particular sedução que desperta.


Manuel Mendes (Roteiro Sentimental — A Sul do Tejo)

domingo, 21 de setembro de 2008

Concelho da Guarda em imagens 3

Um soito (povoamento de castanheiros para produção de castanha) no Outono


No ponto mais alto do concelho — Cabeça Alta (1.287 metros). Ao fundo destaca-se a serra da Santinha (± 1.500 metros), sobranceira a Folgosinho, já no concelho de Gouveia


quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Sobreiros

Põe-se o Sol atrás do Monte,
Vermelha tarde outonal…

Há transparências no ar,
Laivos purpúreos,
Doirados,
Roxos,
Ocres,
Amarelados,
Todos os tons violentos
Que se possa imaginar…

(Os borregos já nascidos
Soltam, ao longe, balidos,
Regressa o gado ao curral.)

Da terra recém-rasgada,
Húmida, fresca, fendida,
P'lo arado violada,
Onde abriram os alqueives
Em leivas férteis, fecundas,
Surgem gigantes torcidos!…
Seus troncos são paus batidos,
Pelo suão já tisnados,
Exangues uns, outros sangrentos,
Testemunhos de tormentos,
De tanto viver já cansados…

Cantar-vos, quanto desejo!

Assim eu tivesse ensejo
E me fosse dado o jeito
Para libertar do peito
Todo o amor que vos tenho:

Sobreiros do meu Alentejo!



João Filipe Bugalho (Inédito, 1985)

sábado, 13 de setembro de 2008

Os meus livros 22

Capa de "GR22. Grande rota das aldeias históricas" (Inatel, 2000)


Este foi mais um dos livros editados ao abrigo do projecto da "Carta do Lazer das Aldeias Históricas". É dedicado à grande rota europeia 22 que liga as 10 aldeias históricas num percurso de btt de cerca de 540 quilómetros, o qual atravessa 17 concelhos do interior beirão e 3 áreas protegidas, a saber: Parque Natural da Serra da Estrela, Parque Natural do Douro Internacional e Reserva Natural da Serra da Malcata.
Embora a sua autoria seja da Teresa Bento, um dos elementos da equipa técnica criada expressamente para a realização deste projecto, os textos sobre o património natural (descrições ao longo dos percursos) e as fotografias de fauna e flora são de minha autoria.

sábado, 16 de agosto de 2008

[A azinheira]

De folhagem rija, com recorte picante, tinge-se de um verde baço, soturno, sendo o fruto de tamanho variável, a maioria das vezes aguçado. Nas azinheiras a que chamam boleta doce, a lande cria-se maior, de polpa mais rica e apetecida que a do sobreiro, apreciando-a o rural alentejano, que a come crua ou assada, como noutros lugares se come a castanha.

*

Dada a rijeza da madeira, densa, inquebrável, além de a aproveitarem para lenha e carvão, empregam-na ainda hoje no fabrico de certas alfaias agrícolas […].

*

Vive parasitariamente nas raízes da azinheira, como de alguns carvalhos, a saborosa túbara, tão apreciada pelos gastrónomos, e da qual são gulosos o porco de vara e o cerdo bravo, que na terra fossam quando delas lhes vem o cheiro. É a trufa que o francês tem artes para cultivar, e dá uma sopa divinal, certos recheios e guarnecimentos, como o famoso peru trufado, que é manjar principesco.


Manuel Mendes (Roteiro Sentimental — A Sul do Tejo)


terça-feira, 12 de agosto de 2008

Animais, plantas e paisagens de Portugal 14


Laverca (Alauda arvensis)



A Laverca é uma cotovia típica, de tons acastanhados, com diferentes riscas e manchas que lhe conferem um elevado mimetismo. A face ventral é clara e o peito listrado de castanho. Tem um canto variado, audível a grande distância, que entoa no ar por vezes a alturas apreciáveis. Evidencia, ao levantar ou pousar, uma faixa branca de ambos os lados da cauda e no bordo posterior das asas. Em Portugal ocupa zonas abertas (i.e. prados/lameiros, pousios-pastagem, alqueives e restolhos, arrozais e searas de sequeiro) tanto de Inverno como na época da reprodução.
Reproduz-se sobretudo a norte do Tejo, quer no litoral quer no cume das serras ou em planaltos elevados (e.g. planalto beirão). A sul nidifica em parte da área costeira e na serra de Monchique. Constrói o ninho no solo e põe de três a cinco ovos. Alimenta-se de insectos e matéria vegetal (incluindo sementes). Existe na Europa, na Ásia Central e no Japão.
De Inverno forma grandes bandos e é mais abundante no Alentejo. Existe uma população invernante considerável no nosso país quantitativamente igual ou mesmo superior à população reprodutora. Na serra da Estrela, onde cria, pode ser observada logo a partir de Março mesmo com o solo coberto de neve. Não se sabe qual o destino da população reprodutora após a nidificação, em especial a que provém das serras do centro e norte.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

[O monte]

O montado que dá a cortiça e a lande de engorda, os campos de semeadura e a charneca, para as terras alagadiças o arrozal, em muitos casos o lagar de azeite e nalguns a adega daquele vinho áspero, a criação do gado com o seu pastoreio, desde a vara dos porcos ao rebanho das ovelhas, as grandes matanças e o fabrico da queijaria, a manutenção da arribana dos bois e a cavalariça, em suma, quanto pessoal assalariado e adventício conflui ali de norma — o que em certas propriedades maiores ainda hoje acontece —, forma o monte principal, sede da herdade, casa-mãe, a funcionar como um activíssimo centro obreiro, sendo ao mesmo tempo local de recolha e pernoita, tanto para o gado como para a gente de trabalho.


Manuel Mendes (Roteiro Sentimental — Os Ofícios)


quarta-feira, 30 de julho de 2008

No alto mar

No alto mar
A luz escorre
Lisa sobre a água.
Planície infinita
Que ninguém habita

O sol brilha enorme
Sem que ninguém forme
Gestos na sua luz.

Livre e verde a água ondula
Graça que não modula
O sonho de ninguém.

São claros e vastos os espaços
Onde baloiça o vento
E ninguém nunca de delícia ou de tormento
Abriu neles os seus braços.



Sophia de Mello Breyner Andresen (Poesia)