Livros no Blurb

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

[Guardador de vacas]

Os animais precisam de verde, resmunga-lhe a avó. Constantino percebe o que ela quer dizer, mas entrega-se à fantasia de admitir que as vacas e as burras necessitam de comer cores, agora um bocado de verde e depois outro de amarelo ou de vermelho. E enquanto as desamarra da manjedoura, dá-se ao gosto de pensar como seria divertido levá-las a pastar no arco-íris, podendo cada uma delas escolher a cor que mais lhe apetecesse ou misturá-las e fazer cores diferentes. […]

Alves Redol (Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Animais, plantas e paisagens de Portugal 18

Soito no Outono


Castanheiro multissecular


Folhas de castanheiro


Ouriços


O castanheiro (Castanea sativa) inclui-se na família das fagáceas, a mesma dos carvalhos com os quais é aparentado. Trata-se de uma árvore de folha caduca, corpulenta e de copa arredondada, que pode viver centenas de anos chegando a atingir porte considerável. As folhas são pecioladas, grandes, alternas, serradas, em forma de ferro de lança (lanceoladas). As flores masculinas e femininas são relativamente pequenas, dispostas numa inflorescência em forma de espiga (amento), amarelo-clara a esbranquiçada, de 13 a 30cm de comprimento, que nasce na axila das folhas. O fruto é a bem conhecida castanha que se desenvolve em número de 1 a 3 no interior de uma cúpula globosa e espinhosa (o ouriço).
Alguns autores defendem que o castanheiro ter-se-á extinguido em Portugal no princípio do Holocénico, para ser reintroduzido há cerca de 2.000 a 2.200 anos. Seja como for fez parte da floresta primitiva da Península Ibérica.
Existe sobretudo a norte do Tejo em regiões frescas e com elevado teor de humidade atmosférica (minho, trás-os-montes, beira interior). A sul do Tejo encontramo-lo na serra de S. Mamede (Alto Alentejo), na serra de Sintra, no Cercal e na serra de Monchique.
Floresce em Maio|Junho. O fruto começa a caír em Outubro. É uma planta própria do oriente mediterrânico (Turquia).
Os povoamentos de castanheiro assumem 2 formas diferentes: o soito e o castinçal. O soito é uma formação em estrutura de parque, semelhante ao montado, para produção de castanha. O castinçal é um povoamento mais ou menos denso, de árvores esguias, para a produção de madeira.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Vilancete de Abel pastor

Adorai, montanhas,
Ó Deus das alturas !
Também as verduras !
Adorai, desertos
E serras floridas,
Ó Deus dos secretos,
Ó Senhor das vidas !
Ribeiras crescidas,
Louvai nas alturas
Deus das criaturas !
Louvai, arvoredos
De fruto prezado !
Digam os penedos :
Deus seja louvado !
E louve meu gado
Nestas verduras
Ó Deus das alturas !


Gil Vicente

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

[O primeiro vinho]

Todos os frutos que se comem e o primeiro vinho têm o mesmo travor agro, a que se mistura o cheiro a folhas podres. Encanta-me a lide grosseira da adega onde os jornaleiros rouçam as pipas para as alinharem: é nesta escuridão, junto às quatro padieiras do lagar reluzindo à chama da candeia, que o vinho vai fazer-se até ao S. Martinho. — No S. Martinho prova o teu vinho.

Raul Brandão (Memórias III — Vale de Josafat)

sábado, 27 de dezembro de 2008

[Douro]

Ora um dia sucedeu que dois gigantes, um vindo de Trás-os-Montes e o outro da Beira Alta, mais gigantes na alma que no corpo, galgaram as serras, desceram as encostas e, depois de olhar os fundões do rio e provar o néctar dos frutos bravos, entenderam que aquela terra e aquele rio eram, pela sua áspera grandeza, dignos da labuta de gigantes. E resolveram meter o picão às fragas; reduzi-las a terrunha; amparar os seus "veios" estreitos com "socalcos" de pedra solta; e plantar sobre as escarpas, que eram sarças de fogo, os primeiros bacelos de videira.
Quando, mais tarde, voltaram, viram com surpresa que as vides carregavam e as uvas ressumavam um licor capitoso, que lhes dava leveza aos passos e alegria às almas.
Outros e mais outros, todos gigantes, vieram trazidos pela fama e, arquejando, dobrados sobre o chão, praguejando e gemendo, lacerando as mãos e os membros contra as lascas das ardósias, banhando a terra em suor e sangue, arrancaram do xisto novos "veios" que ampararam com novos "socalcos": e o que fora a montanha deserta, tornou-se em jardim suspenso.

Jaime Cortesão (Portugal — A Terra e o Homem)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Os meus livros 25

Capa do Livro Uma Viagem pelo Património Natural das Aldeias Históricas do Interior Beirão (Inatel, 2002)


Algumas páginas do interior do livro

Contracapa


Esta publicação coligiu praticamente todo o material escrito e fotográfico que produzi, no âmbito do projecto "Carta do Lazer das Aldeias Históricas", para cada um dos oito livros sobre as aldeias históricas de Linhares, Marialva, Castelo Rodrigo, Almeida e Castelo Mendo, Sortelha, Idanha-a-Velha e Monsanto, Castelo Novo e Piódão. Como tal, a área geográfica retratada abrange 23 concelhos do interior beirão (entre Douro e Tejo) e caracteriza e descreve o património natural deste vasto território bem como as suas particularidades geo-climáticas.
O livro encontra-se hoje provavelmente esgotado, tendo sido vendido quer pelo Inatel quer pela Fnac.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Laranja

Não precisas de mais. Tens tudo em ti:
perfume, cor, semente, gravidade.
Um sol te beija o rosto, no jardim,
e tombas quando tomba o fim da tarde.


António Luís Moita (Sal)

sábado, 13 de dezembro de 2008

Animais, plantas e paisagens de Portugal 17




Guarda-rios (Alcedo atthis)


Trata-se de uma espécie inconfundível. A sua plumagem é, na face dorsal, de tonalidades azuladas com reflexos metálicos que contrastam com o alaranjado da face ventral. O corpo é bojudo, de forma oval, do qual mal se destaca a cabeça donde parte um bico grosso e robusto. Existe em todo o país embora se encontre em menor abundância no interior das regiões centro e norte. Ocupa uma grande variedade de ambientes aquáticos tanto dulçaquícolas como salobros, ou até mesmo marinhos (orlas costeiras, principalmente no Inverno). Nidifica em taludes de terra ou arenosos nos quais escava um orifício comprido que se termina por uma câmara onde deposita de cinco a sete ovos de cor branca. Apesar de também consumir insectos e anfíbios alimenta-se essencialmente de peixe.
Existe na Europa, na Ásia Central e Meridional, no Japão e no Noroeste Africano. De Inverno também ocorre no Nordeste Africano, na Arábia e na Indonésia.
Em Portugal é uma espécie residente relativamente comum embora localizada devido ao tipo de ambientes que frequenta. Na estação fria, o nosso país acolhe uma pequena a moderada população migradora.